27 DE Fevereiro DE 2020

O passado dia 9 de fevereiro ficou marcado pela 92ª edição dos Óscares, um evento associado ao glamour e à fama. Devido a isto, as celebridades que vimos na passadeira vermelha estão sujeitas a uma grande exposição pública1.

A série ‘Stalkers de Hollywood’ mostra como celebridades recebem atenção indesejada, obsessiva e violenta, um comportamento que pode ser considerado stalking2.

 

O que é o stalking?

Desde os anos 90, o stalking tem sido alvo de atenção por parte de investigadores e juristas, tendo-se concluído que afeta um número considerável de pessoas2,3.

No entanto, o stalking de celebridades é muito menos investigado, apesar de estudos sugerirem que a sua prevalência é maior do que na população geral4. Além disso, demonstram a sua frequente associação a um historial de doenças mentais, o que pode concorrer para a sua imprevisibilidade e perigosidade4.

Isto é um crime em vários países, incluindo Portugal, estando previsto no artigo 154.º-A do Código Penal5. Apesar de a sua definição legal ser distinta consoante o país, existem elementos geralmente comuns: “um padrão de perseguição indesejada”, “uma ameaça credível” e “indução de medo na vítima”4.

Porém, as vítimas podem não se aperceber de que estão a ser alvo de stalking6. A atenção exagerada e outros comportamentos por parte de fãs fazem parte do quotidiano das celebridades, pelo que certas ações que seriam imediatamente percebidas como preocupantes na população geral não o são nessas7.

Assim, o stalker pode só ser detetado quando leva a cabo ações mais extremas e potencialmente perigosas8. No entanto, casos de violência física ou grave são raros, apesar de serem os noticiados e abordados na comunicação social2.

 

As redes sociais como facilitadoras do stalking

Com o surgimento das redes sociais, o problema ganha outra dimensão, visto que estas se tornaram uma ferramenta essencial para a autopromoção das celebridades1,4,9.

Estas costumam interagir com os fãs nas redes sociais de maneira familiar, promovendo uma ideia de intimidade, que, quando captada por fãs obsessivos, pode ser interpretada de forma errada e acentuar o stalking4.

Como tal, as redes sociais, e a internet em geral, podem ser usadas perversamente pelos stalkers, seja para obter informação pessoal das celebridades, quer públicas ou “hackeadas”, ou para as assediar através de, por exemplo, mensagens ameaçadoras ou inapropriadas, fazendo-o de forma anónima e à distância1,9.

 

Stalkers de Hollywood        

Existem diversas motivações subjacentes ao stalking que podem, aliadas a transtornos mentais, conduzir a comportamentos violentos.

Um dos casos retratados na série foi o de Rebecca Schaeffer, morta por um jovem esquizofrénico paranoico que se apaixonou pela atriz e se enraiveceu ao vê-la numa cena íntima. Aqui podemos ver a associação entre transtornos mentais e stalking e identificar o stalker como ‘ressentido’, definido por Wilson et al.4 como motivado pela raiva por culpar a celebridade por algo que perceciona como uma injustiça.

Outro exemplo distinto foi o de Jodie Foster, cujo stalker tentou assassinar Ronald Reagan pois acreditava que assim iria conquistá-la, tendo-se confirmado que este tinha transtornos mentais. Quanto à motivação, podíamos classificá-lo como um stalker que ‘procura intimidade’, acreditando que é intitulado a uma relação com a vítima4.

Na situação de Steven Spielberg, o stalker vigiava a sua casa com algemas, fita cola e um x-ato, tendo revelado a intenção de o violar10. Este pode ser considerado um ‘predador’, pois planeou e preparou-se para uma agressão sexual4.

 

Consequências para as vítimas

Brevemente, o stalking pode resultar psicologicamente em, por exemplo, ansiedade, medo e desconfiança, e socialmente pode levar as vítimas ao isolamento. Além disso, é usual a adoção de medidas protetivas, como mudar de contacto, casa, rotinas ou aparência. Estes efeitos podem ocorrer a longo prazo, mesmo depois do stalker ter “desaparecido”3.

            É necessário entender melhor o fenómeno

É essencial que se dê mais importância ao seu estudo, seja pela sua prevalência nas celebridades, pelo perigo que alguns stalkers representam, pelos efeitos negativos que causam nas vítimas ou pela elevada taxa de reincidência dos ofensores4,7,11.

Assim, apesar da fama, as celebridades são vulneráveis ao stalking, comprovando-se que esta pode ter, de facto, duas caras.

E vocês? Que tipo de motivações identificaram nos episódios de “Stalkers de Hollywood”? Deixem a vossa opinião nos comentários!

 

O conteúdo publicado neste artigo é de inteira responsabilidade dos autores e não representa o posicionamento/opinião do canal Crime+Investigation.

Criminólogas: Sara Afonso e Vânia Sampaio.

 

  1. Halder, D. (2016) ‘Celebrities and Cyber Crimes: An Analysis of the Victimization of Female Film Stars on the Internet’. Temida 19 (3), 355-372. DOI: 10.2298/TEM1604355H
  2. Schlesinger, L. B., and Mesa, V. B. (2008) ‘Homicidal Celebrity Stalkers: Dangerous Obsessions with Nonpolitical Public Figures’ in Stalking, Threatening, and Attacking Public Figures. ed. by Meloy, J. R., Sheridan, L., Hoffmann, J. New York: Oxford University Press, 83-104
  3. Korkodeilou, J. (2017) ‘No place to hide: Stalking victimization and its psycho-social effects’. International Review of Victimology 23 (1), 1-16. DOI: 10.1177/0269758016661608
  4. Wilson, S., Dempsey, C., Farnham, F., Manze, T., and Taylor, A. (2018) ‘Stalking risks to celebrities and public figures’. Cambridge University Press 24 (3), 152-160. DOI: 10.1192/bja.2017.22
  5. Código Penal Português. Decreto-Lei n.º 48/95, de 15 de março. Diário da República n.º 63/1995, Série I-A de 1995-03-15. Atualizado pela Lei n.º 102/2019, de 06 de setembro. Ministério da Justiça, Lisboa.
  6. Meloy, J. R., Sheridan, L., and Hoffmann, J. (2008) ‘Public Figure Stalking, Threats, and Attacks: The State of the Science’. in Stalking, Threatening, and Attacking Public Figures. ed. by Meloy, J. R., Sheridan, L., Hoffmann, J. New York: Oxford University Press, 3-34
  7. McCutcheon, L. E., Aruguete, M., McCarley, N. G., and Jenkins, W. J. (2016) ‘Further Validation of an Indirect Measure of Celebrity Stalking’. Journal of Studies in Social Sciences [online] 14 (1), 75-91. available from <https://infinitypress.info/index.php/jsss/article/download/1268/582> [12 February 2020]
  8. Roberts, K. A. (2007) ‘Relationship Attachment and the Behaviour of Fans towards Celebrities’. Applied Psychology in Criminal Justice [online] 3 (1), 54-74. available from <https://pdfs.semanticscholar.org/43ce/c4799381a2ea25f84a8dfe095eb69eb55e35.pdf> [10 February 2020]
  9. Wykes, M. (2007) ‘Constructing crime: Culture, stalking, celebrity and cyber’. Crime, Media, Culture: An International Journal 3 (2), 158-174. DOI: 10.1177/1741659007078541
  10. McAllister, S. (1998) ‘Declared a Danger, Spielberg Stalker Gets Sentence of 25 Years to Life’. Los Angeles Times [online] 18 June. available from <https://www.latimes.com/archives/la-xpm-1998-jun-18-me-61135-story.html> [15 February]
  11. Meloy, J. R., Mohandie, K., and Green, M. (2008) ‘A Forensic Investigation of Those Who Stalk Celebrities’. in Stalking, Threatening, and Attacking Public Figures. ed. by Meloy, J. R., Sheridan, L., Hoffmann, J. New York: Oxford University Press, 37-54

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